segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Manganês. Capítulo 2

Capítulo 2

Amapá - Pouco reconhecido no Brasil, muito cobiçado no estrangeiro.



O contrato de exploração do manganês que duraria 50 anos encerraria em 2003. O fato é que nem bem começava a década de 80 e já havia rumores de que o manganês acabaria antes deste prazo. Durante visita que Isaura fez a seus pais em Serra do Navio conversaram a respeito da expectativa dos habitantes da Vila Terezina, da Vila Amazonas e das demais localidades ao redor de Santana e Serra do Navio.

– Do jeito que eles estão fazendo o manganês não chega nem até o fim da década – João diz a filha
– Não é pra menos, o manganês está sendo extraído 24 horas todos os dias – Otília complementa a informação

Esses cochichos pareciam absurdos na época, pois a jazida de manganês era gigantesca e a previsão para o fim da mesma seria de 50 anos no mínimo. Erraram na conta ou a ambição foi maior que a força dos braços Amapaenses.

Enquanto isso Ernesto corria atrás de mais uma presa, afinal ele tinha que aproveitar que sua esposa estava longe. Bem, isso não fazia a menor diferença, pois não respeitava a mulher. Então ele fez tudo com a maior tranquilidade, levou uma de suas amantes para sua casa, fez comida para os dois, abriu um bom vinho, deu a ela uma roupa e um sapato de Isaura. Disse que estava separado  e que não tinha problema dela dormir lá mas pela manhã Ernesto mandou a mulher ir embora, mentiu dizendo que tinha que trabalhar. 

Ela foi levando muitas coisas de Isaura, mas fez questão de deixar pistas de sua presença na casa, pois desconfiou que o recém "namorado" estava mentindo. Logo depois Isaura chega e vê pertences femininos em seu banheiro, percebe que mexeram em suas coisas, sente falta de uma joia valiosa. Pergunta ao marido quem esteve em sua casa e ele fala simplesmente que ninguém esteve lá, além da empregada. Ela estranha por ser a folga de sua empregada e também o fato dela ter usado a banheiro do casal em vez do banheiro social. Isa guarda tudo para devolver a sua funcionária na segunda feira e nesta ocasião tem uma grande surpresa, os pertences não eram dela. 

Isaura percebeu na hora que seu marido mentiu e abafou o caso, não comentou o acontecimento nem mesmo com Ernesto. De que adiantaria falar com ele se não fosse para expulsa-lo de sua casa. Sendo assim ficou com a dúvida se a joia foi roubada ou se seu marido deu presente para outra mulher.

Manuela percebia que sua mãe era infeliz e entendia bem o motivo. Tudo que Isaura precisava para salvar sua família era se impor, se impor como mãe e se impor como esposa. Mas Isaura não tinha força quando o assunto era ir contra Ernesto, e ele se aproveitava do fato ter uma esposa totalmente submissa. Manuela via sua mãe se matando de tanto trabalhar enquanto seu pai não fazia nada além de andar atrás de mulheres para levar em sua casa e dizer mentiras para elas. 

Nesse tempo o telefone era privilégio de poucos e ele convenceu a esposa a obter uma linha, só para receber chamadas a cobrar de suas "namoradas". Os telefonemas eram realizados em qualquer hora, inclusive quando Isaura estava em casa. Tempos depois ela começou a receber telefonemas anônimos dizendo sobre as aventuras de seu marido. Até Manuela algumas vezes atendeu ligações de mulheres que se diziam amantes de seu pai. 

Ernesto passou a fazer viagens constantemente para visitar uma segunda esposa que ele mantinha em outro estado. Certa vez quando ele retornou de uma de suas viagens ele trouxe consigo a tal mulher e a hospedou na casa de um parente. Manuela descobriu rapidamente a segunda esposa do pai e contou para sua avó Otília.

Até Isaura ficou sabendo mas fingiu não acreditar nas fofocas, para não aborrecer Ernesto. Tinha medo dele sair de casa. Só uma mulher muito boba acreditaria que um marido deixaria uma esposa como ela. Ele não tinha a menor intenção de deixar Isaura, junto dela ele levava a vida que pediu aos deuses. 

A revolta e a tristeza que invadia o coração de Manuela era alimentado dia após dia por seus pais. A falta de atenção e de proteção de sua mãe, o desprezo e crueldade de seu pai e também as intrigas de seu irmão. Ela não conseguia entender como sua tia Isadora conseguia salvar ela dos castigos e sua mãe não fazia exatamente nada quando podia muito bem fazer. Ela escutava suas tias dizer que sua mãe amava mais o marido que a própria filha. E Manuela começava a acreditar que isso era verdade. 

A maneira carinhosa com que tratava Ernesto mesmo ele fazendo tantas coisas absurdas dava a todos essa impressão. A forma como a esposa defendia o marido mesmo ele mesmo ele a enganando, vendendo seus bens para viajar com suas amantes parecia hipnose. Todos tentavam abrir os olhos dela, fazer ela acordar do transe e entender de uma vez por todos que seu casamento foi um erro. Mas Isaura sempre dava um jeito de justificar até as agressões de Ernesto, mesmo as agressões que Manuela sofreu desde bebê. 

Isaura se preocupava demais se Ernesto estava vestido adequadamente, com camisas de seda e sapatos impecáveis. Enquanto Manuela passava por ridículo na escola justamente por causa de suas roupas. Ernesto sempre viajava sozinho e Isaura nunca tinha dinheiro pra passar férias em outro lugar com os filhos. Não podia faltar dinheiro para Ernesto e a família que vivesse com limitações que não fazia o menor sentido. Apenas Ernesto tinha o direito de ir e vir. Isaura muitas vezes ficava de fora das comemorações de família com medo de Ernesto  aparecer fazendo alguma cena. Ela vivia fugindo de constrangimentos desnecessários. 

Por mais que Isaura tentasse unir a família, o que ela fazia ou a forma como ela fazia não resultava em nada. Ela não entendia que se casou com um homem machista, autoritário e com um sério desvio de conduta.

Sem saber o por quê ou por destino que estava traçado para Manuela sua Mãe lhe colocou para estudar piano. Isso foi bom e foi ruim. O bom foi que na música Manuela tinha o escape que ela tanto precisava. O ruim foi ter mais um ambiente aonde ela não se sentia à vontade e onde ela seria inevitavelmente hostilizada. Um mundo que ela admirava, mas que não se julgava capaz de pertencer a ele. Por mais que ela fosse diferente na aparência e que realmente ela fosse diferente em seu interior a arte estava em seu sangue. Uma coisa de que ela não poderia fugir. 

Manuela estava entrando numa fase delicada sem ninguém pra apoia-la. Via suas amigas desabrochando pra vida e olhava para ela e só sentia desgosto. É perigoso uma adolescente olhar para o espelho e não gostar do que vê. Sentir pena de si mesma era o sentimento que não largava Manuela. Invejava as colegas que passeavam e tiravam fotos bonitas. Manuela também queria viajar e conhecer outros lugares. Sonhava um dia poder sair do seu limitado e infeliz mundo. 

A adolescência chegou. E as primas que já estavam na faixa dos 13 anos exceto Carol que era três anos mais velha. Carolina parecia brilhar mais que um diamante lapidado com sua estonteante beleza. Heloísa era a aluna mais aplicada na escola. Só enchia os pais de orgulho. Enquanto Manuela enfrentava os mais diversos conflitos que uma adolescente poderia enfrentar. 

Estava ficando muito revoltada por dentro, mas era preferível que ficasse rebelde e colocasse tudo pra fora. Assim pelo menos alguém poderia convencer Isaura a olhar com mais atenção para sua filha. Manuela reprimia o grito e com isso ninguém reparava que ela estava sufocada em suas mágoas.  Mesmo sem gritar por socorro era incrível que seus pais e seu irmão não perceberam que Manuela era profundamente infeliz. Se um psicólogo fosse avaliar o caso não teria dúvida em dizer que ela sofria de complexo de inferioridade, angústia, baixa auto-estima, insegurança e depressão profunda. É ,estava mesmo se tornando um caso sério e ninguém via. Ninguém!   

Um pouco da atenção exagerada que davam ao Mauro lhe faria muito bem, mas ninguém daquela casa enxergava a garota. Sua mãe se dividindo entre dois emprego e um marido que dava muito trabalho. Seu pai só tinha tempo para preparar Mauro para ser um gênio e entre uma folga e outra ir atras de suas conquistas. Claro que Otília percebia que Isaura não defendia a neta dos abusos de Ernesto. Era difícil para ela interferir, pois sempre que tentava fazer isso sua saúde era abalada porque Ernesto não poupava esforço para deixa-la nervosa. Até ameaças ele fazia a pobre senhora. Com uma saúde frágil Otília não podia enfrentar Ernesto. 

Manuela se isolava na escola, no bairro, na igreja e não conseguia fazer amizade com ninguém. Todos a achavam uma garota muito estranha, principalmente por causa da maneira que sua mãe a vestia. Saia com o comprimento no joelho mostrando pernas finas e os sapatos grandes saindo dos pés. Suas blusas pareciam de meninos, não tinha a modelagem feminina. Isaura não se preocupava se os colegas de Manuela iriam caçoar dela. Era um castigo enfrentar os olhares de toda a escola. Os cochichos, os risos eram tudo por causa de uma apresentação fora dos padrões. 

Isso causava baixa auto-estima. A pouca visão de mundo devido viver presa demais, e também, o baixo rendimento escolar pela falta de incentivo em casa explicava o complexo de inferioridade. Manuela se achava feia, burra e incapaz por isso era muito retraída.

Tudo que era saudável, normal e bom foi negado a Manuela. Um exemplo disso foi a dispensa médica que Isaura conseguiu para que Manuela não praticasse educação física. Um pecado se levarmos em conta o quanto é indispensável as atividades físicas para o ser humano em pleno desenvolvimento. Por causa disso, Manu não desenvolveu habilidades físicas, boa musculatura e resistência. Ela queria correr como todas as outras garotas da idade dela. Mas com o passar do tempo isso se tornou um problema pois o menor esforço físico lhe cansava. E o resultado de um corpo fraco foi um motivo a mais para se sentir inferior aos outros.

Na imagem triste e feia dela estava o reflexo da sua desagregação familiar. Mauro fez tudo o que quis. Se ele queria correr na rua com os garotos, ele podia. Manuela se sentia desmotivada a viver. Se sentia fora do mundo. Mesmo antes da adolescência já queria se tornar uma adulta. Sonhava com o dia de sair da convivência com sua família. Na verdade Manuela sonhava em ir embora pra sempre, até da cidade se possível e nunca mais voltar a ver as pessoas que a maltrataram ou que zombaram dela. 

Foi um sentimento muito ruim que se desenvolveu dentro de Manuela. Era difícil se concentrar nas aulas. Era difícil obter uma boa nota na escola. O comportamento de Manuela mais tarde foi diagnosticado como Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, o pouco conhecido TDAH. No caso de Manuela o sintoma que predominava era o da desatenção, não foi difícil inibir a hiperatividade tendo um pai tão severo quanto Ernesto. 

Esse transtorno que aparece na infância geralmente acompanha a pessoa na fase adulta, por isso deve ser detectado pelos professores ou pelos pais da criança o mais cedo possível para não atrapalhar o seu desenvolvimento e a aprendizagem. Mas Manuela não teve a sorte de ter professores capacitados para reconhecer um caso como o dela na atrasada Macapá dos anos 80. E ela teve que aguentar xingamentos do tipo "avoada", "estabanada", "menina que vive no mundo da lua" que mais tarde se tornou a "tapada", "burra", "ovelha negra". 

Esse transtorno atrapalha a concentração e dificulta a memória fazendo com que os que sofrem do distúrbio não se saia bem nas atividades que desenvolve. Isso explica o seu mau desempenho na escola. A criança com Déficit de Atenção muitas vezes se sente isolada e segregada dos colegas, mas não entende por que é tão diferente. Fica perturbada com suas próprias incapacidades. Sem conseguir concluir as tarefas normais de uma criança na escola, no playground ou em casa, a criança com essa síndrome pode sofrer de estresse, tristeza e baixa auto-estima

Esses prejuízos foram clinicamente significativos no comportamento social de Manuela. Estamos falando de uma adolescente de 13 anos que não correu. Não pulou. Não brincou. Não extravasou a energia, atividades que são de suma importância para quem possui o transtorno. E já que está numa fase da vida em que as emoções são redimensionadas a intensidade do transtorno se agrava bastante aumentando significativamente o risco dessa adolescente se envolver com álcool, drogas e amizades inadequadas.  

Macapá possui um inverno de chuvas intensas, verdadeiras tempestades. Ninguém se arrisca sair naquele temporal de chuva grossa. Mas para Manuela aquela era uma grande oportunidade de fazer algo diferente. Os alunos da escola C.C.A. esperavam a chuva afinar. Mas Manuela encarou sem medo os pingos grossos e gelados. Leandro que era da turma de Mauro foi atras dela. Achou a atitude muito extrema.

– Ei Manuela. Espera aí. Que te deu pra sair debaixo dessa chuva? 
– Eu gosto. A chuva lava a minha alma.
– Você tá com algum problema? Tá triste? Quer conversar? 
– Não estou triste. Esse é o meu jeito.
– Você é da mesma turma da minha namorada ela me falou que você é muito na sua. Eu sei que você é diferente e eu não me importo de ser seu amigo. Pode ser? Você é sempre tímida assim? Ou fala pouco mesmo?
– Não, eu falo muito, mas só quando tem alguém pra ouvir.
– Engraçado! Eu sempre te vejo sozinha andando pelos corredores da escola. É o primeiro ano que você estuda nesse colégio?
– Não, é o segundo. Espero que seja o último porque não consigo fazer amizade com essas patricinhas.
– É realmente, as patricinhas são insuportáveis.
– Acha mesmo?
– Sim, com certeza. São muito superficiais e insensíveis, assim como os mauricinhos também.
– Eu sempre achei que você fosse um mauricinho.
– Eu tenho muitos amigos mauricinhos, mas eu não sou um mauricinho. È por isso que eu prefiro andar com o teu irmão porque ele também não é nenhum mauricinho.
– E não é mesmo. Pra ser mauricinho ou patricinha precisa ter dinheiro.
– Nem sempre, conheço pessoas que não tem um centavo, mas que se comportam como ricos, falsos mauricinhos e falsas patricinhas.
– Mas por que você veio falar comigo? Também queria pegar chuva?
– Além disso, queria conversar com você. Te conhecer um pouco mais. Gosto de fazer novas amizades, principalmente se não for patricinha. 
– Bem, daqui eu vou sozinha, não posso chegar com você em casa.
– Mas por quê?
Meu pai é muito chato.
– Tudo bem, não quero que ele brigue com você. Tchau!
– Tchau!

Manuela nunca soube o que era se sentir feliz por isso achava que a tristeza era o seu jeito de ser. Leandro era o anjo que vinha salvar Manú quem sabe até mesmo de um suicídio. Tantas adolescentes na idade dela inexplicavelmente tiram a própria vida. Ele não teve o preconceito que afastavam as pessoas de Manuela. Leandro viu que existia uma outra por trás daquela pessoa triste. Enxergou muito além e fez com que ela também percebesse isso. Ele a ajudou a se aceitar.  Deu a ela a atenção que ela tanto precisava. Soube escutar. Soube aconselhar. Soube ser o amigo anjo que faltava em sua vida. Isso fez dele não somente o primeiro amor da sua vida, mas uma das pessoas mais importantes da sua existência.

Leandro era um rapaz bem intencionado e muito responsável apesar de muito apaixonado sempre segurou seus impulsos e desejos. Para um rapaz de 16 anos e uma moça de 13 manter um relacionamento puro e inocente estava cada vez mais raro mesmo nos anos 80. Mas o casal fazia planos de ficar juntos e esperar o momento certo. Manuela sonhava com o dia em que seu príncipe encantado lhe tiraria daquela casa e que a levasse para um lugar bem longe onde não houvesse sofrimento. Ela jurava que leandro era o seu príncipe. Que eles iriam casar e ser felizes para sempre.

De certa forma Leandro foi seu príncipe. Foi muito mais que um conto de fadas. Foi verdadeiramente o seu primeiro amor. E pra não quebrar a tradição houve um momento que se eternizou. Numa noite enluarada do mês de julho o casal de adolescentes conversavam em frente a casa de Leandro. Ele segurou a mão dela, olhou bem no fundo dos olhos dela e disse: "Você tem olhar mais bonito que eu já vi em toda minha vida. Sei que ainda tenho muito que viver, mas eu acho que nunca vou encontrar em outro olhar esse encanto." 

Leandro estava certo sobre o olhar de Manuela. Ele escondia um desejo. Um anseio louco por vida. E não era uma vida qualquer. Aquelas olhos escondiam sonhos de ícaro cujas asas não eram feitas de cera e lhe possibilitariam voar para muito além do sol onde ninguém jamais imaginou chegar. Leandro tinha certeza do potencial da namorada porque conseguia enxergar através de seus olhos um futuro esplendoroso. E essa confiança em si que ela aprendeu a ter depois que conheceu Leandro fez toda a diferença na época.

Infelizmente o ano passou e a família de Leandro teve que ir embora de Macapá. As pessoas têm um destino e não podem fugir dele. Leandro tinha que aparecer no caminho de Manuela. Mesmo que sua passagem fosse comparado a um cometa. Ele cumpriu sua missão. Passou sua mensagem. Agora Manuela não tinha que esquecer, mesmo que tudo parecesse um sonho de ícaro. Manuela pensou que suas asas deveriam ser mesmo de cera e que o sol derreteu. Se sentiu caindo no mar Egeu.

_ Que Egeu que nada! Eu sou da Amazônia _ Falou Manuela olhando para o espelho e secando as lágrimas. O desejo de Manuela era possuir asas aço enriquecido com o manganês de alto teor da Serra do Navio. Asas tão fortes que o calor do sol não pudesse derreter. A presença de Leandro ainda estava muito forte. Ela fechava os olhos e podia ouvir todas as conversas maravilhosas e enriquecedoras que tiveram. Ela tinha que se agarrar a essas lembranças para cumprir a promessa que fez a Leandro. Prometeu não deixar mais que ninguém a fizesse se sentir inferior.

Para a alegria de Manuela seu pai foi morar em outro estado com Mauro. O queridinho da família não podia cursar qualquer universidade. Com isso Manuela se sente mais livre e mais feliz. Ela recebeu uma carta de Leandro pedindo a ela que se cuidasse, que reagisse e que fosse feliz. Manuela foi criando um castelo de ilusões ao redor dela sobre o que é felicidade. Não iria demorar muito tempo pra ela descobrir que ser livre não é sinônimo de ser feliz. Manuela vai descobrir que a nossa felicidade depende de nossas escolhas e que às vezes seguimos a felicidade por caminhos tortos e espinhosos. 

É verdade que para provarmos a felicidade temos que passar pelo sofrimento. Para provar o doce da vida temos que primeiro engolir o amargo. Manuela achou que tudo fosse ser fácil. E foi por caminhos íngremes e sinuosos, andando e tropeçando que Manuela enfrentou esta fase sozinha sem saber que ela era portadora de um distúrbio que ainda significava uma incógnita para a classe médica. Ela caia e se levantava. Apesar de se aceitar mais, ela queria entender por que era tão diferente das outras pessoas. Mas a instabilidade é outro sintoma do TDAH por isso a desconfiança em si própria voltava e complicava tudo de novo. 

O futuro parecia outra vez distante tendo mau desempenho na escola e nas aulas de música. Pra piorar a situação a sua professora de musicalização não tinha o menor tato pra lidar com a situação. Ela fazia com que Manuela se sentisse pior ainda sempre que chamava a menina moça de "aluada". Certo dia ela perguntou a adolescente por que sua mãe insistia em manda-la para aula de música? Manuela ficou profundamente triste nesse dia. 

É nessas horas quando a auto estima está bastante fragilizada que os adolescentes transtornados costumam "chutar o pau da barraca". A menina se sentindo um nada achou que não tinha muito a perder e fugiu de casa. Na sua cabeça ela não estava fugindo de casa e sim "dando um tempo". Um tempo dos outros. Um tempo pra si mesma. Aconteceu que neste dia Manuela provou álcool pela primeira vez com uma menina da escola bem mais velha que ela. Depois ficou pensando que voltar pra casa seria uma péssima ideia, não porque iriam notar, talvez ninguém notasse que bebeu e sim porque ela precisava se distrair para não dar "cabo" da própria vida. Pois algo de que ela mais gostava estava ficando claro pra ela que não seria possível: as aulas de música.

Essa foi apenas uma das muitas vezes que Manuela deixou sua família louca procurando por ela. Uma família que se importava com ela, mesmo que as vezes parecessem distantes. Nem Manuela e nem tao pouco a sua família sabiam que estavam passando por um problema tão fácil de resolver com o tratamento adequado. Claro que nessa altura da vida, muitas coisas já haviam se perdido lá na infância que jamais poderia ser recuperado. 

Aquelas lembranças lúdicas que todo mundo gosta de ter. Para Manuela lembrar de sua infância era sempre um processo doloroso. Essa foi uma das sequelas deixada pelo Transtorno do déficit de atenção. Ela já tinha muitos problemas e queria eliminar um: a cruel professora e seus comentários que só feriam ainda mais autoconfiança de Manu.


Aguarde... em breve a continuação do capítulo 2




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